Tarefa
das mais difíceis é a síntese. Tanto mais quando se trata de obra
extensa e polêmica como a de Sigmund Freud, que inaugurou para o mundo,
no séc. 20 (a partir das últimas décadas do séc. 19), a ciência da
psicanálise.
Durante
toda a sua vida, profíncua até a morte, aos 83 anos, o grande
pesquisador, de extraordinário talento, dedicou-se ao estudo do ser
humano, abrindo portas para espetaculares descobertas, ao dissecá-lo em
plenitude, desde o seu surgimento na face da terra, fruto da evolução, e
desvendando-lhe a mente.
Admirado
e seguido por outros estudiosos, teve suas idéias enraizadas em
numerosos campos da ciência, instituindo nela um novo enfoque, que a
ninguém é possível ignorar. Tão difundidas e arraigadas estão, cerca de
um século depois das suas descobertas, que já se implantaram na vox
populi: “ele é um recalcado”, “Freud explica”, “foi um ato falho”. Sobre
o “ato falho”, jamais me esquecerei de uma ocorrência dos meus tempos
de ginásio: era nossa professora no Colégio Coração de Jesus a Irmã
Cunegundes. Lecionava Matemática, Física e Química. Naquela época, além
da prova escrita, fazia-se prova oral. Foi quando, a uma pergunta sobre
Física, eu pensei certo, mas respondi exatamente o contrário. E não
houve perdão.
Quão
surpreendente não seria a obra freudiana se Freud chegasse a viver na
época atual com o reconhecimento do genoma! As teorias freudianas
abrangem praticamente todas as áreas do saber. Abordá-las significa
embrenhar-se no inconsciente humano, que para ele é o elo do gênero, na
cadeia filogenética.
Desde
tenros anos tomei contato com Freud, através de suas Obras Completas,
“traducción directa Del alemán por Luis Lopez-Ballesteros y de Torres,
Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1948,” (2 vol., 1303 pág.), obra que
ainda tenho na minha biblioteca.
Sigmund
Freud, neurologista e psiquiatra, nasceu em Freiberg, Morávia, Áustria,
hoje Tchecoslovaquia, em 1856, e faleceu em Londres em 1939. Viveu em
Viena dos quatro aos oitenta e dois anos, retirando-se para a
Inglaterra, onde faleceu um ano mais tarde.
Escolhendo a neurologia como especialidade na medicina, freqüentou as aulas de Charcot na Salpétriére, em Paris.
Datam
dessa época suas descobertas psicanalíticas no trato com neuróticos,
experiências em que foram aplicadas também a hipnose e a sugestão,
posteriormente abandonadas para privilegiar a livre associação de
idéias, que consiste em o paciente comunicar ao médico tudo o que lhe
vem à cabeça, mesmo que aparentemente não faça sentido. Foi o início da
descoberta da psicanálise.
Em
Viena, relacionou-se com Breuer, publicando em 1895 a obra Estudos
Sobre a Histeria. A seguir, chamou a atenção para a natureza sexual dos
traumas infantis causadores das neuroses.
Em
1900 publicou a primeira obra psicanalítica propriamente dita: a
Interpretação dos Sonhos. Em 1903 fundou a Sociedade Psicanalítica de
Viena. Em 1908 reúne-se em Salzburg o primeiro Congresso Psicanalítico e
surge a primeira revista especializada. Em 1909 ocorre a primeira
aceitação oficial da psicanálise: Freud vai aos EUA, a convite da
Universidade Clark para fazer conferências. Em 1910 é fundada a
Associação Psicanalítica Internacional, que existe até hoje. Muitos dos
conceitos freudianos foram introduzidos na psicologia acadêmica. Na
Alemanha Freud recebeu o Prêmio “Goethe”.
Após
a ocupação de Viena pelos nazistas em 1938, refugiou-se na Inglaterra.
Seus livros foram dos primeiros a ser queimados, e sua biblioteca,
destruída. Na Grã-Bretanha recebeu honrarias, vindo a falecer a 23 de
setembro de 1939, vitimado por um câncer que o molestava desde 1923. Seu
último livro, Moisés e o Monoteísmo, foi escrito em 1939 aos oitenta e
três anos.
Sua
tradição teve continuidade na Clínica de Terapia Infantil de Hampstead,
em Londres, organizada por sua filha Anna, também psicanalista, que
dedicou suas atividades precipuamente às crianças.
Para Lacan, existe no inconsciente um denominador comum, que é sua estruturação como uma linguagem.
O
inconsciente age no ser humano a revelia dele. Freud comparou a sua
descoberta a dois outros fatores provocados pela ciência, que feriram o
amor-próprio da humanidade: um foi desbancar a Terra como centro do
universo (Copérnico), outro, a demonstração de que o homem não é o
centro da criação (Darwin). A psicanálise veio mostrar que “o eu não é
senhor nem mesmo em sua própria casa”. O mito se constrói com o tempo.
Sobre o tempo, esse fator inesgotável, sentindo o pulsar da atualidade.
“De
fato, foi a bipedia que fez do homem o primeiro animal não somente
sexuado, mas ‘sexual’, e da sexualidade um dos fundamentos da
hominização”. E continua: “A alteração produzida pela postura ereta
sobre a sexualidade representou um poderoso fator de mudança nos homens,
senão o mais poderoso, como veremos. Como já pudemos examinar
anteriormente com profundidade, Freud insistiu continuamente, desde os
Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade, livro inaugural da
perspectiva psicanalítica sobre a sexualidade, até o fim de sua obra,
que a sexualidade humana não pode ser reduzida à reprodução, à qual no
entanto ela está a serviço. Freud atribuiu tal característica ao modelo
pulsional da sexualidade humana, bastante diverso do modelo instintual,
que comparece no animal.
É
preciso notar que estudos mais recentes mostram que, já entre os
primatas, e diferentemente dos outros mamíferos, a sexualidade começa a
se dissociar de seu fim inicial, a reprodução, e que quanto mais
próximas são as espécies do gênero Homo, mais a atividade sexual é rica e
flexível, com uma receptividade sexual das fêmeas não inteiramente
cíclica, isto é, não totalmente relacionada com a ovulação e a
finalidade reprodutiva. Assim, observa-se nos primatas uma espécie de
‘transição entre a sexualidade dos outros mamíferos e a de Homo sapiens
sapiens, no qual ela ocupa um lugar importante e radicalmente
específico” À medida que o amor vai se sublimando, vai paulatinamente
abdicando da sexualidade e ingressando na amizade. O amor se transforma
em amizade ou, como querem alguns, em “verdadeiro” amor. Termino com uma
sábia admoestação de Freud: “O último capítulo desta obra (A
psicopatologia da vida cotidiana) é dedicado à demonstração de que ‘não
há nada no psíquico que seja produto de um livre arbítrio, que não
obedeça a um determinismo’, e, assim, até mesmo a escolha aparentemente
casual de um número acaba se revelando como sobredeterminada
inconscientemente”.
Igual
conclusão preside a minha visão do mundo. Daí a minha postura de
perplexidade ante os seus mistérios e a minha crença em Deus. Em função
dessa crença, adoto a oração “que Deus nos ensinou”, como norma de vida:
“Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem
ofendido”.É um caminho difícil, dificílimo, quiçá impossível…
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Freud, Sigmund – Obras Completas (Traducción directa del alemán por Luis López-Ballesteros y de Torres). Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1948.
Jaeger, Werner – Paideia. Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo, 1979.
Jorge, Marco Antônio Coutinho – Fundamentos da Psicanálise, de Freud a Lacan – volume 1: As bases conceituais. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000.
Freud, Sigmund – Obras Completas (Traducción directa del alemán por Luis López-Ballesteros y de Torres). Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1948.
Jaeger, Werner – Paideia. Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo, 1979.
Jorge, Marco Antônio Coutinho – Fundamentos da Psicanálise, de Freud a Lacan – volume 1: As bases conceituais. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000.

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